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  • Dr. Alexandre F. Souza

As Araucárias São Pioneiras?


Araucárias jovens crescendo em área degradada na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, RS. Foto do autor.

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências Bibliográficas no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2015. As araucárias são pioneiras? Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

O sul da Mata Atlântica brasileira, começando no sul de Minas Gerais e norte de São Paulo, e extendendo-se até a Serra Geral do Rio Grande do Sul, é marcado pela presença maciça das araucárias. Seu nome científico é Araucaria angustifolia, sendo conhecidas como pinheiro brasileiro. Árvores que podem viver por muito séculos e atingir tamanhos formidáveis, enfeitam as paisagens sulinas com suas copas abertas, produzindo sementes grandes e nutritivas avidamente consumidas por muitos animais e também pelos moradores da região.

Araucárias são Pioneiras?

Em 1960 o botânico gaúcho Roberto Klein publicou um extenso trabalho na revista científica Sellowia [1], no qual argumentava que o pinheiro brasileiro era uma espécie pioneira capaz de colonizar os campos abertos mas que com o tempo era ela própria substituída por outras espécies de árvores. Em Ecologia chamamos de pioneiras aquelas espécies de plantas que estabelecem-se em áreas abertas, crescem rapidamente e depois desaparecem do local, sendo substituidas por outras espécies, de crescimento mais lento. Esta afirmação iniciou um longo período de controvérsias e dúvidas.

As dúvidas vieram de várias fontes. Como era possível que a espécie de árvore mais conhecida das florestas sulinas, também sendo a mais abundante e simbólica, pudesse ser uma espécie pioneira, portanto transitória nestes ecossistemas? Além disso Klein fez suas afirmações com base em observações de campo, mas sem medidas precisas. O caráter pioneiro das araucárias torno-se um tipo de lenda científica, repetida com frequencia porém sempre sem muita certeza.

As Pioneiras Clássicas

Grande parte da confusão teve origem na imagem de pioneira que a maioria de nós tem. Ao longo dos anos 1980 e 1990 foram feitas muitas pesquisas em florestas tropicais com foco nas transformações que ocorrem nas clareiras. Estas clareiras se formam após a queda de uma árvore adulta, e nelas árvores pioneiras ocupam rapidamente o espaço. Em seu famoso artigo de 1988 [2] os pesquisadores ingleses Michael Swaine e Tim Whitmore resumiram o pensamento sobre pioneiras: espécies de crescimento rápido, cujas sementes são pequenas e só germinam estimuladas pela luz do sol (que as indica que estão em uma clareira), produzem madeira leve, reproduzem-se cedo e vivem pouco, tipicamente cerca de 35 anos.

O grande problema com este perfil de árvoes pioneiras é que ele deixa de lado um fato crucial: estas não são todas as pioneiras. São apenas o grupo ecológico das Pioneiras de Vida Curta. E as araucárias claramente não se encaixam aí. Reforço para este desencaixe foram os trabalhos de Leandro Duarte e seus colegas [3, 4], mostrando que plântulas de araucárias conseguem sobreviver na sombra, e que portanto não seriam pioneiras.

Apesar disto, os pesquisadores não encontraram araucárias jovens no interior de florestas nativas... O mistério das araucárias continuava.

Esclarecendo o Mistério

A informação que faltava nesta discussão é que existe um outro grupo de árvores pioneiras: as Pioneiras de Vida Longa. Ao contrário das Pioneiras de Vida Curta, as pioneiras de vida longa não precisam de luz para germinar, conseguem permanecer na sombra moderada por um certo período de tempo. Entretanto, se não receberem a luz abundante de grandes clareiras, simplesmente não conseguem sobreviver até a fase adulta.

É por isso que após grandes perturbações como deslizamentos de terra e quedas múltiplas de árvores em microtornados e outras grandes tempestades vemos o surgimento (ou "recrutamento") de grandes números de árvores pioneiras de vida longa. Elas crescem relativamente rápido (não tanto quanto as pioneiras de vida curta), também produzem madeira leve, e tipicamente atingem grandes tamanhos. Ao contrário das pioneiras de vida curta, apostam na estratégia de viver por longos períodos e produzir sementes muito atrativas para os animais, de forma a aumentar a chance de germinação em alguma área aberta.

As pioneiras de vida longa não suportam o sombreamento das espécies de crescimento mais lento, e por isso não conseguem produzir gerações de jovens crescendo no interior das florestas maduras. Permanencem como pioneiras gigantes cercadas de espécies tolerantes à sombra, testemunhando a ocorrência de alguma perturbação de grande escala que aconteceu no passado.

Araucárias são Pioneiras de Vida Longa

E é exatamente este o perfil das araucárias. Como percebeu Klein em suas excursões pela Natureza, as araucárias avançam sobre os campos abertos, colonizando-os antes das demais espécies de árvores. Mas esta invasão é passageira.

Em uma análise de 25 populações de araucárias, meus colegas e eu [5] descobrimos que as araucárias sempre formavam um extrato mais alto do que as demais árvores, e que quanto mais perturbada era uma população, maior a proporção de juvenis. Em outro estudo [6], descobrimos que as populações de araucárias em florestas maduras e bem conservadas praticamente não tinham juvenis, enquanto que em florestas que sofreram extração seletiva de madeira nos anos de 1950 havia um grupo de araucarias jovens maior, reflexo do surto de juvenis ocorrido na época, e nas que sofreram extração nos anos de 1980 havia um grupo de jovens menor, correspondente ao surto de juvenis mais recente. Um retrato do fato de que araucárias jovens só se estabelecem após uma perturbação.

Além disso, tiramos 525 fotografias hemisféricas das copas das árvores acima de araucárias jovens e também em pontos aleatórios do interior florestal. Estatisticamente, as araucárias jovens encontravam-se em pontos onde a copa das arvores era mais aberta e mais luz do sol entrava no interior florestal [6].

Estas análises em grande escala vieram confirmar a sugestão de Klein feita há tantos anos atrás, mas também acrescentar detalhe a ela: as araucárias pertencem ao grande grupo das espécies pioneiras de vida longa, que dependem de grandes clareiras não para germinar, mas para atingir o tamanho adulto, não suportam a sombra das espécies que colonizam posteriormente a área mas convivem com elas através de sua altura maior e de sua vida longuíssima, capaz de aguardar a vinda de uma próxima perturbação.

Pelo Mundo

Pioneiras de vida longa são conhecidas em quase todas as florestas do mundo, tanto tropicais quanto temperadas. O fato de coníferas (a família dos pinheiros) geralmente apresentarem este tipo de estratégia é amplamente documentado na Nova Zelândia, Austrália e nos Estados Unidos, e a dinâmica de florestas onde este tipo de pioneira predomina tem uma dinâmica diferenciada [7]. O Brasil pode agora entender melhor onde se encaixa no pensamento ecológico mundial a ecologia das suas belas araucárias.

Referências Bibliográficas citadas neste texto

[1] Klein, R. M. 1960. O aspecto dinâmico do pinheiro brasileiro. - Sellowia 12: 17–51.

[2] Swaine, M. D. and Whitmore, T. C. 1988. On the definition of ecological species groups in tropical rain forests. - Vegetatio 75: 81–86.

[3] Duarte, L. S. e Dillenburg, L. R. 2000. Ecophysiological responses of Araucaria angustifolia (Araucariaceae) seedlings to different irradiance levels. - Aust. J. Bot. 48: 531–537.

[4] Duarte, L. S. et al. 2002. Assessing the role of light availability in the regeneration of Araucaria angustifolia (Araucariaceae). - Aust. J. Ecol. 50: 741–751.

[5] Souza, A. F. 2007. Ecological interpretation of multiple population size structures in trees: The case of Araucaria angustifolia in South America. - Austral Ecol. 32: 524–533.

[6] Souza, A.F., C. Forgiarini, S.J. Longhi, and D.A. Brena. 2008. Regeneration Patterns of a Long-Lived Dominant Conifer and the Effects of Logging in Southern South America. Acta Oecologica 34: 221–32.

[7] Enright, N.J., J. Ogden, and L.S. Rigg. 1999. Dynamics of Forests with Araucariaceae in the Western Pacific. Journal of Vegetation Science 10: 793–804.

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