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  • Dr. Alexandre F. Souza

Afinal, Podemos Cortar as Araucárias?


Caminhão com toras de Pinus extraídas de plantio na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, Rio Grande do Sul. Foto do autor.

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências Bibliográficas no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2015. Afinal, podemos cortar as araucárias? Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

Os brasileiros vivem uma espécie de dilema em relação às florestas com araucárias que fazem parte da região sul da Mata Atlântica. Por um lado temos que atender à urgente necessidade de conservar estas floresas e sua preciosa biodiversidade, reduzidas a cerca de 13% de sua extensão original [1]. Isto tem sido promovido através das leis de proteção à Mata Atlântica e suas espécies ameaçadas, cujo corte está proibido e ligado a autorização dos órgãos ambientais estaduais [2]. Por outro lado, temos que solucionar a convivência econômica dos produtores rurais com as florestas existentes em suas propriedades, já que são estes produtores que de fato convivem com as florestas e precisam cuidar e também interessar-se pela sua conservação.

Uma distinção muito clara precisa ser feita aqui: por serem Pioneiras de Vida Longa, as araucárias não conseguem completar seu ciclo de vida no interior das florestas em que ocorrem. Elas necessitam de áreas abertas e com penetração de luz elevada para atingir a idade reprodutiva [3].

As consequencias desta constatação científica são diversas para o manejo bem sucedido da espécie nas propriedades rurais:

1 - As araucárias colonizam naturalmente áreas abertas como campos nativos, pastagens e áreas degradadas. Portanto tendem a formar adensamentos com alto número de indivíduos, e a produtividade da madeira e do pinhão tende a ser elevada nestas condições.

2 - O plantio de araucárias é viável e vem sendo estudado no Brasil há pelo menos desde a década de 1970 [4]. A iniciativa de formação de plantios tem esbarrado, porém, na falta de clareza dos órgãos ambientais sobre a natureza agrícola/silvicultural destas iniciativas e a ameaça de embargo pela presença imprevisível de espécies ameaçadas dentro dos plantios.

3 - Se a produção de madeira e sementes pelas araucárias é facilitada em áreas abertas e plantios, ela é dificultada e problemática no interior de ambientes florestais. Isto ocorre porque o corte das araucárias adultas nestes ambientes sombreados não é seguido pela regeneração natural de indivíduos jovens, que não suportam a competição pela luz com as outras espécies arbóreas. Sendo assim o corte nestas áreas não é sustentável porque não inclui a renovação do recurso que as araucárias representam.

4 - As tentativa de aplicar modelos de produção de madeira desenvolvidos na Europa e Estados Unidos às populações de araucárias fracassam pelo fato destes modelos terem sido desenvolvidos para florestas temperadas com poucas espécies dominadas por pioneiras, situação completamente distinta daquela encontrada nas florestas ricas em biodiversidade e com ecologias complexas como as brasileiras [5].

5 - A única forma de produzir araucárias jovens em áreas florestais é bastante arriscada: cortar árvores jovens de outras espécies, bem como cipós e arbustos ao redor de mudas e juvenis de araucárias, de forma que eles recebam luz suficiente para crescer até a idade adulta. Estes métodos de manejo florestal nativo causam empobrecimento do ecossistema através da destruição intencional de muitas espécies cuja ecologia é pouco conhecida, e pode precipitar a auto-destruição de fragmentos florestais pequenos [6], que são a maioria dos remanescentes da Mata Atlântica [1]. Além disso, muitos insetos, mamíferos e aves dependem das folhas, seiva, flores e frutos destas espécies de árvore que tendem a declinar pelo manejo focado apenas nas araucárias. Um manejo assim exigiria um monitoramento detalhado e a existencia de áreas de reserva contíguas [7] que mais dificilmente poderão existir em muitas propriedades rurais.

Então em uma frase: precisamos promover o crescimento de araucárias em áreas abertas e estabelecer novos plantios desta espécie, e deixar as araucárias no interior dos fragmentos florestais cumprindo suas funções ecológicas e de proteção à fauna nativa.

É nesta linha que projetos promissores como os desenvolvidos pela Embrapa Florestas (PR) visando ao paisagismo rural, sequestro de carbono e retorno financeiro aos produtores através do plantio de araucárias em divisas de propriedades, ao longo de estradas, e em sistemas agroflorestais [8].

[1] Ribeiro, M.C., J.P. Metzger, A.C. Martensen, F.J. Ponzoni, and M.M. Hirota. 2009. “The Brazilian Atlantic Forest: How Much Is Left, and How Is the Remaining Forest Distributed? Implications for Conservation.” Biological Conservation 142: 1141–53.

[2] Decreto nº 6.660, de 21 de novembro de 2008

[3] Para maiores detalhes sobre a estratégia ecológica das araucárias, veja a matéria "As araucárias são pioneiras?" em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica#!As-Arauc%C3%A1rias-S%C3%A3o-Pioneiras/c1mbt/557f37570cf28827c188217b

[4] Guerra, M.P., V. Silveira, M.S. Reis, and L. Schneider. 2002. “Exploração, Manejo E Conservação Da Araucária (Araucaria Angustifolia).” In Sustentável Mata Atlântica: A Exploração de Seus Recursos Florestais., edited by L.L. Simões and C.F. Lino, 85–101. São Paulo: Senac.

[5] Sanquetta, C.R. 1999. “ARAUSIS: Sistema de Simulação Para Manejo Sustentável de Florestas de Araucária.” Floresta 29 (1/2): 115–21.

[6] Gascon, C., G.B. Williamson, and G.A.B. Fonseca. 2000. “Receding Forest Edges and Vanishing Reserves.” Science 288 (5470): 1356–58.

[7] Souza, Alexandre F., Liseane Santos Rocha Cortez, and Solon Jonas Longhi. 2012. “Native Forest Management in Subtropical South America: Long-Term Effects of Logging and Multiple-Use on Forest Structure and Diversity.” Biodiversity and Conservation 21 (8): 1953–69. doi:10.1007/s10531-012-0287-1.

[8] https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/1656125/pesquisa-pode-reverter-ameaca-de-extincao-da-araucaria

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