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  • Dr. Alexandre F. Souza

Produção em Massa de Sementes de Araucárias? Não.


Pinha aberta com sementes do pinheiro brasileiro (Araucaria angustifolia) em São Francisco de Paula, RS (foto: Daniele U. Matos).

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências Bibliográficas no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2015. Produção em massa de sementes de araucárias? Não. Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

A produção de sementes é um processo muito importante na Natureza.

Os milhões de toneladas de sementes produzidas por árvores, arbustos e ervas permitem a germinação e regeneração da vegetação nativa, e também sustentam papagaios, gralhas, roedores, besouros e muitos outros animais, além dos seres humanos.

Não só o tamanho, mas também o ritmo de produção de sementes tem um grande impacto no mundo natural e também no humano. O estudo destes ritmos é chamdo Fenologia. Entre todos os ritmos, um se destaca pela sua intensidade: a produçao de sementes em massa.

Ela acontece quando uma espécie de planta permanece por um período relativamente longo com pouca ou nenhuma produção de sementes, e então em um determinado ano produz uma quantidade maciça que inunda seu ambiente com sementes. A produção em massa de sementes ocorre em espécies de bambus, árvores temperadas e muitas outras, e é mais comum em espécies polinizadas pelo vento ou dispersas por animais que também são predadores de sementes [1].

A explicação mais provável para a evolução da produção de sementes em massa é a pressão exercida pelos animais predadores de sementes. Plantas que produziam poucas sementes ano após ano e armazenavam reservas de energia para produzir muitas sementes esporadicamente evitavam a perda de sementes com mais sucesso. Isto acontece porque nos anos de pouca produção os predadores declinam e, no momento de alta, em geral estão em número reduzido e não consomem a produção toda [2].

Diferentes ritmos fenológicos hipotéticos de produção de sementes.

Um caso brasileiro?

Uma espécie de árvore brasileira candidata natural ao posto de produtora de sementes em ciclos e em massa é a araucária ou pinheiro brasileiro (Araucaria angustifolia) [3]. Árvores de grande porte e de vida muito longa, as araucárias são polinizadas pelo vento e produzem sementes grandes e ricas em carboidratos e proteínas [4] que são consumidas e ao mesmo tempo dispersas por uma longa lista de aves e mamíferos [5]. A impressão de que as araucárias produzem sementes em ciclos com anos de alta e anos de baixa produção, e de que alguns destes anos apresentam produção maciça é comum nas pessoas que moram na companhia da espécie, e aparece até no livro popular "O pinheiro brasileiro" [6].

Teste de hipóteses

Em um trabalho publicado na revista científica Acta Oecologica [7], quatro pesquisadores brasilieiros testaram as hipóteses de que as araucárias produzem sementes em ciclos, e que estes ciclos ocorrem como produções em massa.

Como não existem dados de campo de longo prazo sobre a produção de pinhões (como são conhecidas as sementes das araucárias), duas fontes de dados alternativas foram utilizadas. Uma foi resultado dos registros de pesagens da produção de pinhões durante 13 anos em uma fazenda localizada no município de Painel, sul de Santa Catarina. A outra foram os registros comerciais de entrada de pinhões feitos pela CEASA de Porto Alegre [8] por município por períodos de até 30 anos.

Surpresa

Ao contrário do que poderia ser esperado inicialmente, não foram encontrados ciclos em nenhuma das séries de dados de produção de pinhões analisadas.

A produção de sementes em Painel não foi nem de longe tão variável quanto seria de se esperar para uma produção em massa, e sua variação foi estatisticamente igual a uma variação aleatória.

Produção de sementes de araucárias durante 13 anos em Painel, Santa Catarina.

O mesmo se verificou em seis municípios do Rio Grande do Sul, onde a produção foi mais variável (devido principalmente ao caráter agregado e comercial dos dados), mas também distante do tamanho da variação de uma produção em massa e ainda mais distante da forma em ciclos.

Produção de sementes de araucárias em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul.

Os padrões obtidos são improtantes para compreendermos o ritmo interno destas árvores centenárias, para planejar melhor a coleta de pinhões para uso humano, e também para a ecologia dos animais que dependem da produção destas sementes para sobreviver.

Estes resultados ilustram o quanto padrões ecológicos encontrados em uma região ou espécie precisam ser testados antes de serem aceitos em outras áreas ou espécies. Ilustra também o quão pouco conhecemos sobre o funcionamento da biodiversidade brasileira, e também como podemos nos enganar facilmente observando padrões de maneira informal, sem usar ferramentas científicas para enxergar com mais clareza a realidade ao redor.

Referências

[1] Kelly, D. & Sork, V.L. (2002) Mast seeding in perennial plants: why, how, where? Annual Review of Ecology and Systematics, 33, 427–447.

[2] Kelly, D. (1994) The evolutionary ecology of mast seeding. Trends in Ecology and Evolution, 9, 465–470.

[3] Veja outras postagens sobre a ecologia das araucárias e das florestas em que elas ocorrem na página principal deste blog.

[4] Bello-Péreza, L.A., García-Suáreza, F.J., Méndez-Montealvoa, G., Nascimento, J.R.O., Lajolo, F.M. & Cordenunsib, B.R. (2006) Isolation and characterization of starch from seeds of Araucaria brasiliensis: a novel starch for application in food industry. Starch, 58: 283-291.

[5] Vieira, E.M. & Iob, G. (2009) Dispersão e predação de sementes de Araucaria angustifolia. Floresta com Araucária: Ecologia, Conservação e Desenvolvimento Sustentável (eds C.R. Fonseca, A.F. Souza, A.M. Leal-Zanchet, T. Dutra, A. Backes & G. Ganade), pp. 85–96. Holos, Ribeirão Preto.

[6] Mattos, J.R., 1994. O pinheiro brasileiro. 2a ed. Lages, Artes Gráficas Princesa.

[7] Souza, A.F., Matos, D.U., Forgiarini, C. & Martinez, J. (2010) Seed crop size variation in the dominant South American conifer Araucaria angustifolia. Acta Oecologica, 36, 126–134.

[8] Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul S/A.


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