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  • José Luiz A. Silva e Alexandre F. Souza

A Restinga é Neutra?


Vegetação de restinga arbustiva sobre dunas em Parnamirim, Rio Grande do Norte. Foto do autor.

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Silva, J.L.A. e Souza, A.F. 2015. A restinga é neutra? Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

Em Ecologia, consideramos que um ambiente pode ser estressante se tiver baixa produtividade ou alta freqüência de distúrbios. Um bom exemplo de um ambiente estressante no Brasil ocorre no litoral – as Restingas. Os solos das Restingas são pobres em nutrientes e ainda podem ser movidos por fortes ventos do litoral [1]. Além disso, no litoral, há severos períodos de seca e insolação, principalmente nas regiões nordeste e norte. Estas condições funcionam como uma barreira para a maioria das espécies, e apenas aquelas tolerantes ao estresse conseguem ocupar o sedimento arenoso ao longo do litoral brasileiro [2].

Assim, podemos pensar no ambiente extremo do litoral brasileiro como um filtro, que só deixa entrar aquelas espécies de plantas da Mata Atlântica, do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia que sejam capazes de sobreviver a ele.

Em uma pesquisa recente, investigamos se a distribuição das espécies na Restinga estaria associada a variação do ambiental [3]. Para isso estudamos toda uma área com árvores e arbustos em Parnamirim, litoral do Rio Grande do Norte, e avaliamos se havia ali um agrupamento de espécies aparentadas e uma separação de espécies não-aparentadas associadas a diferentes pontos do ambiente costeiro. Vales entre dunas e o lado protegido do vento destas dunas seriam áreas que poderiam ser menos estressantes e nas quais espécies sensíveis poderiam ocorrer [4].

Quando a variação do ambiente é forte e faz com que espécies mais sensíveis se protejam em ambientes diferentes daqueles das espécies mais resistentes ao estresse, dizemos que as espécies estão organizadas de acordo com seus nichos ecológicos e que a comunidade está organizada pelo processo de Seleção [5]. O Nicho de uma espécie é um conjunto de condições e recursos no qual ela consegue sobreviver e se reproduzir. Por outro lado, se a variação do ambiente não é suficiente para proteger as espécies sensíveis, então a vegetação não é organizada pelo processo de Seleção e sim por um processo Neutro [5,6]. Um processo Neutro é baseado na Deriva ecológica, que é uma seqüência de flutuações aleatórias na abundância das espécies [7].

Nossos resultados indicaram que a Restinga que estudamos é um ambiente homogeneamente estressante que parece dominado por espécies tolerantes ao estresse. A variação do ambiente não parece ser suficiente para permitir que espécies mais sensíveis ocupem refúgios como vales entre dunas e encostas dunares protegidas do vento.

A maioria das 55 espécies encontradas em Parnamirim é rara, e espécies raras podem ser passageiras em um local. A presença de espécies passageiras em uma comunidade leva a uma fraca associação com o ambiente e uma predominância da Deriva. [8]. Este argumento é interessante já que a maioria das espécies das Restingas são um subconjunto de espécies vindas de áreas vizinhas, como Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia; com a maioria delas tendo poucos indivíduos [2].

Então parece que a Deriva ecológica é o processo dominante nas nossas Restingas, e que, portanto, elas poderiam ser consideradas como comunidades neutras de espécies. A Seleção baseada no nicho parece operar de forma dominante apenas na escala ampla (ou biogeográfica) ao longo do litoral.

Referências

[1] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. www.ibge.gov.br

[2] Scarano, F. R. 2002. Structure, function and floristic relationships of plant communities in stressful habitats marginal to the Brazilian Atlantic Rain forest. Annals of Botany 90:517–524.

[3] Silva, J. L. A., A. F. Souza, J. G. Jardim, and B. T. Goto. 2015. Community assembly in harsh environments: the prevalence of ecological drift in the heath vegetation of South America. Ecosphere 6(7):111. http://dx.doi.org/10.1890/ES14-00548.1

[4] Moeslund, J. E., L. Arge, P. K. Bøcher, T. Dalgaard, and J.-C. Svenning. 2013. Topography as a driver of local terrestrial vascular plant diversity pattern. Nordic Journal of Botany 31:129–144.

[5] Vellend, M. 2010. Conceptual synthesis in community ecology. Quarterly Review of Biology 85:183–206.

[6] Stegen, J. C., X. Lin, J. K. Fredrickson, X. Chen, D. W. Kennedy, C. J. Murray, M. L. Rockhold, and A. Konopka. 2013. Quantifying community assembly processes and identifying features that impose them. International Society for Microbial Ecology 7:2069–2079.

[7] Hubbell, S. P. 2001. The unified neutral theory of biodiversity and biogeography. Princeton, Princeton University Press.

[8] Chave, J. 2004. Neutral theory and community ecology. Ecology Letters 7:241–253.


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