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  • Karla J. Silva-Souza e Alexandre F. Souza

Ausência do Gado e não Eucaliptais Empobrecem os Campos Nativos em Áreas de Proteção Permanente


Vista de um campo nativo intercalado com manchas florestais em São Francisco de Paula, Rio Grande do Sul. Foto do autor.

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2016. Ausência do gado e não eucaliptais empobrecem os campos nativos em áreas de proteção permanente. Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

A maioria de nós está acostumada com o tema do desmatamento no Brasil. A destruição das vastas florestas brasileiras vem ocorrendo há séculos, diminuindo a biodiversidade e os serviços de proteção à vida e à economia do País.

Menos familiar porém é a idéia da destruição de campos. O Brasil é tão rico em ecossistemas abertos formados por campos e savanas nativas quanto em florestas tropicais. Os campos e as savanas se distribuem de norte a sul do País, desde Roraima, onde fazem parte das savanas de llanos venezuelanas, passando pelos cerrados do Brasil central até os pampas do Rio Grande do Sul, que fazem parte do grande pampa argentino e uruguaio. Pouco conhecidos dos Brasileiros urbanos, estes campos e savanas estão entre os mais ricos do mundo. Estima-se que o Cerrado contenha 7000 espécies de plantas lenhosas [1], e os campos sulinos até 4000 espécies de plantas em geral [2].

Se o crescimento econômico tem sido acompanhado pelo desmatamento de florestas, nas áreas de campos e savanas ele vem sendo acompanhado pela substituição desses ecossistemas abertos por plantações ou por eucaliptais. O caso dos eucaliptais é particularmente simbólico, pois um ecossistema dominado por ervas é substituído por uma produção formada por árvores.

Nos anos que antecederam a crise econômica iniciada em 2008 o Brasil, assim como a China, os Estados Unidos e a Indonésia, passou por um súbito crescimento na área plantada com variedades de eucalipto visando atender à demanda crescente por papel e celulose [3]. Áreas de campos e savanas tem custo de implantação de eucaliptais reduzido em relação a áreas florestais e por isso foram particularmente plantadas. Hoje estados com muitos campos e cerrados como Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio Grande do Sul representam a maior parte dos quse 7 000 000 de hectares de plantios de eucaliptos e Pinus no Brasil [4].

Crescimento Econômico e Conservação dos Campos

Para que todo este investimento e perda de ecossistemas nativos represente um desenvolvimento sustentável, um requisito é que áeras de campos e savanas sejam conservadas nas margens de rios e em outras áreas frágeis e estratégicas em meio aos eucaliptais, conhecidas como Áreas de Preservação Permanente. Será que os ecossistemas abertos são impactados pela proximidade com plantações de eucalipto?

Em uma pesquisa publicada na revista científica holandesa Journal for Nature Conservation [5], pesquisadores brasileiros compararam a vegetação nativa do campo sulino em Áreas de Preservação Permanente vizinhas a plantações jovens de eucaliptos com áreas controle em fazendas vizinhas.

A principal descoberta foi que nas áreas vizinhas aos eucaliptais o campo cresceu e ganhou biomassa, formando densos tufos de gramíneas dominantes. Esta dominação competitiva produziu a redução de uma grande parte da diversidade de outras espécies de plantas. O resultado foi um campo bem mais pobre em espécies do que aquele encontrado nas fazendas vizinhas.

A chave para entender este resultado está no fato de que nas plantações de eucalipto o gado, que comumente pasta nas fazendas da região, é excluído. Sem a sua ação de pastejo constante sobre as gramíneas de crescimento rápido, estas espécies formam tufos densos e sufocam a maioria das demais espécies, produzindo um campo empobrecido em biodiversidade.

Ao contrário das florestas, os campos e savanas evoluíram junto com grandes manadas de mamíferos pastadores durante milênios. Estes mamíferos foram extintos no Brasil após o último período glacial e acredita-se que o gado cumpra em parte o papel que aquela fauna extinta exercia [6]. A lição que esta análise pode nos deixar é que no caso do manejo de campos e savanas nas Áreas de Preservação Permanente ao redor dos eucaliptais, a presença de grandes animais herbívoros parece ser uma peça chave para a manutenção da rica biodiversidade desses ecossistemas.

Referências

[1] Castro, A.A.J.F., Martins, F.R., Tamashiro, J.Y. & Shepherd, G.J. 1999. How rich is the flora of Brazilian cerrados? Annals of the Missouri Botanical Garden 86: 192–224.

[2] Overbeck, G.E., Müller, S.C., Fidelis, A., Pfadenhauer, J., Pillar, V.D., Blanco, C.C., Boldrini, I.I., Both, R. & Forneck, E.D. 2007. Brazil’s neglected biome: the south Brazilian campos. Perspectives in Plant Ecology, Evolution and Systematics 9: 101–116.

[3] Brockerhoff, E.G., Jactel, H., Parrotta, J.A., Quine, C.P. & Sayer, J. 2008. Plantation forests and biodiversity: oxymoron or opportunity? Biodiversity and Conservation 17: 925–951.

[4] http://www.florestal.gov.br/snif/recursos-florestais/as-florestas-plantadas. Acessod em 01/02/2016.

[5] Souza, A.F., Ramos, N.P., Pizo, M.A., Hübel, I. & Crossetti, L.O. 2013. Afforestation effects on vegetation structure and diversity of grasslands in southern Brazil: the first years. Journal for Nature Conservation 21: 56–62.

[6] Pillar, V.P. & Vélez, E. 2010. Extinção dos campos sulinos em unidades de conservação: um fenômeno natural ou um problema ético? Natureza & Conservação 8: 84–86.


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