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  • Dr. Alexandre F. Souza

Agricultura substitui Campos nativos em uma grande paisagem brasileira


Uma área de estudo inovadora e crescente é a Ecologia de Paisagens que investiga, entre outras coisas, como diferentes usos do solo como a agricultura e a vegetação nativa, mudam através do tempo.

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2016. Agricultura substitui Campos nativos em uma grande paisagem brasileira. Disponível em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

Em nossa experiência pessoal, lembramos do contato com a Natureza através das árvores, animais, rochas e rios que vemos em nossas viagens e também pela televisão. Entretanto, em um nível muito maior, que normalmente não vemos, estes mesmos elementos e muitos outros existem e vivem dinamicamente: o nível das paisagens. Paisagens são áreas grandes, com muitos quilômetros quadrados (às vezes milhares), e nelas encontramos a coexistência de grandes extensões de florestas, campos agrícolas, rios, montanhas muitos outros elementos. Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Neotropical Biology and Conservation [1], cientistas brasileiros investigaram como as paisagens de uma parte da Mata Atlântica se modificaram ao longo de 20 anos.

A paisagem estudada cobre uma área enorme área de 300.000 Km2 e inclui regiões montanhosas cobertas por florestas, plantações de pinos e eucaliptos, áreas agrícolas, campos nativos e cidades. Para fazer o estudo, os pesquisadores compararam imagens de satélite Landsat TM produzidas em 1984, 1994 e 2005. As imagens foram analisadas em programas de computador conhecidos como Sistemas de Informação Geográfica que medem o tamanho, a forma e a ligação entre manchas de diferentes tipos em cada imagem.

Os resultados mostraram que nos 21 anos cobertos pelo estudo, a área agrícola aumentou em 129%, enquanto que a área ocupada por plantações de árvores exóticas como pinos e eucaliptos cresceu 185%. Este crescimento não se deu às custas da Mata Atlântica, que cresceu de uma cobertura inicial de 13% para 33%. Ele se deu às custas dos campos nativos. Muitos brasileiros não sabem, mas em grandes áreas entremeadas com a Mata Atlântica existem vastas extensões de campos nativos, contendo milhares de espécies de ervas e gramas, arbustos, insetos, aves e mamíferos adaptados à vida nestes ecossistemas abertos. São os campos brasileiros, muito utilizados para criação de gado e base de uma cultura vaqueira e amante do desbravamento e das longas viagens.

Os campos nativos que em 1984 cobriam 79% da paisagem estudada foram drasticamente reduzidos para meros 20% em 2005. Entre os campos nativos perdidos, a maioria era campo úmido, inundado em parte do ano e morada de muitas plantas e animais especializados em conviver com esta umidade. Além disso, o perfil econômico de cada região da imagem analisada influenciou as taxas de perda de campo e ganho de floresta, com as maiores perdas de campo nas regiões com cultivo de trigo, maçã, soja, arroz e pecuária.

Nas imagens analisadas, as áreas verde escuras representam florestas, enquanto as áreas verde claras representam campos nativos e as amarelas representam áreas agrícolas.

As áreas de campo nativo, mostradas em verde escuro nas imagens acima, diminuíram mais do que todas as outras entre 1984 e 2005.

Sua transformação pela agricultura e plantação de árvores exóticas chama a atenção para algumas necessidades importantes: (1) planejar melhor a expansão agrícola, de forma que ela coexista com os campos nativos; (2) criar reservas naturais de campos, hoje largamente negligenciados no processo de criação de Unidades de Conservação; (3) manejar os campos remanescentes para protege-los da degradação que todas as áreas fragmentadas e isoladas sofrem, pois os campos que sobraram encontram-se espalhados em milhares de manchas relativamente pequenas.

Os autores verificaram que a expansão da floresta ocorreu na forma de milhares de trechos relativamente estreitos, nos arredores das propriedades rurais de famílias de agricultores que abandonaram suas terras nos últimos anos do século XX, através de um êxodo rural produzido pela divisão das terras por herança e pelo interesse crescente dos mais jovens em estudar e levar uma vida diferente nas grandes cidades.

Trabalhos assim nos revelam que as paisagens do Brasil e do mundo podem ser muito dinâmicas, e que precisamos conhecer este dinamismo, que faz parte da nossa Natureza, se quisermos utilizar com inteligência seus recursos e serviços e também preservar a sua integridade.

Referências


[1] Matos, D.U. de, Souza, A.F., Moura, R.G. & Crossetti, L.O. 2016. Habitat dynamics in subtropical South America: Socioeconomic determinants and landscape patterns at a forest-grassland ecotone. Neotropical Biology and Conservation 11: 2–12.



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