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  • José Luiz A. Silva e Alexandre F. Souza

Plantas de Restinga exibem baixa coordenacao entre folha e lenho


As Restingas são os ecossistemas que ocorrem sobre as praias e planícies arenosas ao longo do litoral do Brasil. A imagem acima é da Ilha da Restinga, na desembocadura do Rio Paraíba do Norte, na Paraíba (fonte: wikipedia.org).

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências no final desta postagem!

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Silva, JLA e Souza, A.F. 2017. Plantas de restinga exibem baixa coordenação entre folha e lenho. Disponível em https://www.esferacientifica.com.br, acessado em / /

A variação na forma das plantas em relação à altura da copa, à área da folha, ao comprimento da raiz ou à densidade da madeira, entre outras características, interfere na maneira como elas capturam, usam e armazenam agua, carbono e nutrientes. Cada ecossistema agrupa um conjunto de espécies que compartilham muitas similaridades tanto na forma quanto no funcionamento.

Ecossistemas em regiões áridas e semi-áridas, como desertos, savanas, montanhas altas ou terrenos próximos ao mar possuem características ambientais adversas que funcionam como um filtro que seleciona aquelas espécies adaptadas ao estresse.

Por exemplo, ambientes costeiros sao fortemente influenciados por ventos fortes e possuem solos arenosos com baixa retencao de agua, alta salinidade, e pobres em nutrientes [1]. Alem disso, uma alta radiação solar e uma estação seca podem aumentar a severidade ambiental do litoral ao tornar o solo ainda mais seco, especialmente na regiao nordeste do Brasil.O tipo de vegetação que tolera as condições estressantes de dunas e tabuleiros litorâneos é conhecida como Restinga.

Embora as espécies de Restinga compartilhem em comum a capacidade de tolerar condições estressantes, elas devem exibir algum grau de variação na forma e no funcionamento das folhas, lenho e raízes. Os tipos de vegetação diferentes que existem na Restinga são um indicativo de forte variação funcional neste tipo de ambiente. Uma importante questão científica é se existem padrões na variação de múltiplas características funcionais entre as espécies.

Quando as características nos diferentes órgãos de uma planta variam de forma muito interligada, dizemos que estas plantas apresentam uma alta coordenação funcional [2]. Neste caso, o aumento de uma característica X, que pode ser tamanho, massa ou volume, leva necessariamente ao aumento ou diminuição das características Y, Z, etc.

Uma recente hipótese criada por pesquisadores australianos [3] sobre o funcionamento de plantas de comunidades submetidas a diferentes graus de estresse propôs que ambientes mais estressantes exigiriam uma maior coordenação funcional entre os órgãos das plantas. Ambientes menos estressantes, por outro lado, não exigiriam tanta coordenação entre os órgãos, permitindo mais variação e diversidade de funções entre plantas.

Os pesquisadores encontraram suporte para esta hipótese ao avaliar um gradiente de comunidades de plantas herbáceas ao longo de savanas e desertos australianos. Baseados nesta hipótese, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte avaliaram o grau de coordenação entre 21 características de folha e lenho de 33 espécies em uma área de Restinga no Nordeste Brasileiro [4]. Uma inovação do trabalho foi a medição de várias características da anatomia e da bioquímica das folhas e do lenho, bem com a produção de serrapilheira (folhas secas), uma vez que estas características são muito pouco conhecidas, principalmente para as espécies brasileiras.

Variação na morfologia de folhas (à esquerda) e na anatomia do lenho (à direita) de espécies de Restinga em Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Era esperado que a seca sazonal da região, que varia em media de 6 a 9 meses, e as condições estressantes do solo pobre funcionassem como um filtro de espécies que compartilham características que variam de forma fortemente coordenada.

As 21 características foram resumidas por uma análise estatística multivariada. A análise revelou que a independência na variação das características foi maior do que a coordenação entre elas. Dois fatores podem estar contribuindo para uma fraca coordenação funcional entre as espécies da Restinga. Primeiro, a Restinga não possui tanta severidade ambiental quanto as áreas de savana e deserto onde a hipótese foi originalmente testada. Apesar de a região de estudo possuir uma estação seca severa, a quantidade de chuva media anual é de 1746 mm, que é relativamente alto [5]. Este fator pode permitir uma maior diversidade funcional se comparado a savanas e desertos e, consequentemente, uma maior diversidade de características e estratégias ecológicas.

Segundo, a restinga possui espécies com origens biogeográficas mais diversificadas, o que também deve aumentar a diversidade funcional da comunidade. A influencia de espécies vindas de regiões vizinhas é um forte estruturador de padrões nas comunidades de Restinga [5].

Os pesquisadores concluíram que espécies de plantas que ocorrem em ambientes estressantes não necessariamente exibem uma alta coordenação entre diferentes órgãos. Contudo, as relações mais importantes entre as características sugeriram que a regulação hídrica entre folhas e lenho é fundamental para o funcionalmente das plantas na Restinga.

Referências

[1] Scarano, F.R. (2002) Structure, Function and Floristic Relationships of Plant Communities in Stressful Habitats Marginal to the Brazilian Atlantic Rainforest. Annals of Botany, 90, 517–524.

[2] Reich, P.B., Wright, I.J., Cavender‐bares, J., Craine, J.M., Oleksyn, J., Westoby, M., Walters, M.B., Cavender-Bares, J. & Walters, M.B. (2003) The Evolution of Plant Functional Variation: Traits, Spectra, and Strategies. International Journal of Plant Sciences, 1643, 143–164.

[3] Dwyer, J.M. & Laughlin, D.C. (2017a) Constraints on trait combinations explain climatic drivers of biodiversity: the importance of trait covariance in community assembly. Ecology Letters, 20, 872–882.

[4] Silva, J.L.A, Souza, A.F, Caliman, A, Voigt, E.L., &Lichston, J.E. No prelo. Weak whole-plant trait coordination in a seasonally dry South American stressful environment. Ecology and Evolution.

[5] Silva, J.L.A., Souza, A.F., Jardim, J.G. &Goto, B.T. (2015) Community assembly in harsh environments: the prevalence of ecological drift in the heath vegetation of South America. Ecosphere, 6, 18.

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