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  • Alexandre F. Souza e Karla Juliete P. Silva

Cientistas descobrem grupos de afinidades ecológicas em espécies do litoral brasileiro


As Restingas recobrem o litoral arenoso do Brasil e são formadas por uma grande variedade de tipos de vegetação (fonte: em sentido horário, primeira foto Eder V. Borges , terceira Alexandre F. Souza, quinta www.robertomoraes.com.br , Alexandre F. Souza, Mariana Faria, https://labtrop.ib.usp.br, e photo: https://luis.impa.br, as demais https://commons.wikimedia.org).

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas presentes na lista de Referências no final desta postagem.

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. e Silva, A.C. 2018. Cientistas descobrem descobrem grupos de afinidade ecológica em espécies do litoral brasileiro. Disponível em https://www.esferacientifica.com.br, acessado em / /

A maioria dos brasileiros já esteve na Restinga pelo menos uma vez. Isso porque a Restinga é o nome que damos aos vários tipos de vegetação que recobrem os milhares de quilômetros de praias, dunas e planícies costeiras do litoral Brasileiro. Não é somente a cobertura rala de graciosas plantas rasteiras que aparece na parte mais alta das praias. É uma grande variedade de arbustais, florestas baixas e altas, tapetes de bromélias e campos com cactos e gramíneas que forma o rico complexo que chamamos de Restinga. E ela está longe de ser bem compreendida cientificamente.

Pesquisas anteriores identificaram que muitas espécies que ocorrem nos domínios da Mata Atlântica, da Caatinga, da Amazônia e até do Cerrado colonizam as restingas. Ali enfrentam solos arenosos, pobres em nutrientes e, no litoral do nordeste, são sujeitas a secas periódicas. Além disso o vento constante e a alta salinidade parecem filtrar aquelas espécies adaptadas a resistir a estes desafios ambientais.

A Restinga tem uma imensa variedade de espécies de plantas. As retratadas acima são arbustivas ou arbóreas. Fonte https://commons.wikimedia.org and Flickr.com

Em um artigo publicado na revista científica americana Ecosphere (clique aqui para ler o original)[1], os biólogos Karla Silva e Alexandre Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) decidiram investigar se as espécies mais comuns de plantas da Restinga respondem cada uma de forma independente às forças ambientais, ou se formam grupos de espécies com respostas parecidas. O resultado é capaz de alterar nossa visão sobre como tantas espécies se organizam na ocupação de um território tão vasto.

Para isso, eles reuniram uma grande base de dados eletrônica contendo mais de 160 levantamentos de campo realizados nas últimas décadas por dezenas de dedicados pesquisadores em todo o País.

Os pontos estudados estavam distribuídos por todo o litoral do Brasil.

Usando uma técnica estatística inovadora [2], eles analisaram a presença ou ausência de 61 espécies de ervas e bromélias, e 222 espécies de árvores e arbustos mais comuns. Os resultados revelaram que esta incrível diversidade de espécies não responde de forma individualista à grande variação de umidade do solo, nutrientes, vento e temperatura. Elas formam 5 grupos de ervas e bromélias e 11 grupos de árvores e arbustos com respostas semelhantes a estes diferentes fatores ambientais. Alguns grupos aumentaram em regiões mais ricas em nutrientes enquanto outros diminuiram; alguns aumentaram em locais alagados enquanto outros evitavam estes ambientes, como mostra a figura abaixo. Cada linha é um grupo de espécies diferente.

Estas afinidades ambientais produziram as diferentes distribuições das espécies que vemos no litoral do Brasil, como mostra a figura a seguir. Quanto mais vermelho, maior a chance de espécies de um grupo serem encontrados em uma região do litoral.

Este resultado nos ajuda a compreender como e porque as espécies da biodiversidade brasileira são encontradas em diferentes pontos da costa. Também podem ser base de futuras pesquisas ligadas às adaptações que diferentes grupos parecem possuir aos estresses destes ambientes. Ao fazer um experimento sobre os efeitos do alagamento ou da seca, por exemplo, pesquisadores podem agora usar espécies de grupos com respostas contrastantes a estes fatores.

Tão importantes quanto a identificação destes grupos ecológicos de espécies foi a descoberta de que, ao mesmo tempo, estas respostas ambientais não foram tão fortes quanto os autores esperavam. Isto significa que muitas espécies que conseguem colonizar a Restinga parecem ter ampla tolerância ambiental, ocorrendo muitas vezes em ambientes distantes das condições ótimas. Como pesquisas anteriores sugeriram , parece que na Restinga a história da colonização de cada área por diferentes espécies e a aleatoriedade da chuva de sementes ao longo da costa desempenham papel tão importante quanto as afinidades ambientais, também conhecidas como nicho (leia uma matéria sobre isso aqui).

Referências Bibliográficas e Comentários

[1] Silva, Karla J. P., e Alexandre F. Souza. 2018. Common species distribution and environmental determinants in South American coastal plains. Ecosphere 9 (6):e02224. https://doi.org/10.1002/ecs2.2224.

[2] Esta técnica chama-se SAM em inglês, e pode ser traduzida como Modelagem de Arquétipos de Espécies.


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