Um corte de 30 anos na Floresta Amazonica

July 7, 2015

 Árvores remanescentes de florestas degradadas pela atividade humana em Nova Petrópolis, extremo sul da Mata Atlântica (RS, foto do autor).

 

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências Bibliográficas no final desta postagem!

 

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2015. Um corte de 30 anos na florestsa Amazônica. Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

 

  

   No primeiro programa da série Missão Extrema, transmitido no Discovery Channel, a médica de aventuras Karina Oliani acompanhou uma equipe de trabalhadores especializados no corte de árvores amazônicas de grande porte. Logo no começo do programa ela tranqüiliza a nós, telespectadores, dizendo: "Aqui é tudo legalizado e feito de forma planejada. A floresta é dividida em unidades de proteção ambiental e os manejadores são autorizados a cortar numa mesma área só de 30 em 30 anos" [1].   

 

   De fato a partir do governo Fernando Henrique, o Programa Nacional de Florestas [2] ampliou a concessão de áreas de florestas nativas na Amazônia para empresas madeireiras dispostas a extrair madeira de forma sustentável segundo Planos de Manejo aprovados pelo IBAMA. O plano foi continuado e expandido nos governos Lula e Dilma, com a intenção de promover o aproveitamento econômico sustentável da floresta Amazônica, conciliando desenvolvimento com conservação.

 

    De fato, milhões de hectares foram concedidos a empresas madeireiras desde a implantação do plano. Para a maioria destas florestas concedidas para o manejo sustentável, o ciclo de corte adotado tem cerca de 30 anos [3]. Numa área de manejo de 6.000 ha, o proprietário poderia explorar cerca de 200 hectares por ano.

 

   O problema é que ciclos de 30 anos não são sustentáveis.    

 

   Em um estudo recente [4], avaliamos a estrutura e as espécies de árvores encontradas em áreas de floresta nativa que nunca foram exploradas, que sofreram extração seletiva de madeira até 1945 (55 anos de recuperação), e outras que sofreram extração seletiva até 1987 (13 anos de recuperação). Em uma série de análises estatísticas, as florestas que que se recuperaram durante 55 anos já apresentavam arquitetura similar às áreas intocadas em altura, área dos troncos, número de árvores jovens e adultas.

 

    Entretanto, a biodiversidade não havia se recuperado totalmente. Várias espécies de árvores encontradas nas áreas conservadas ainda estavam ausentes das áreas em recuperação há 55 anos. Uma análise de beta diversidade confirmou que as espécies das áreas em recuperação são um subconjunto empobrecido da biodiversidade presente nas áreas conservadas. A comparação do perfil das espécies de árvores nas áreas recentemente perturbadas com as em recuperação há mais tempo indicou que as áreas perturbadas tinham muitas espécies pioneiras de crescimento rápido. Naquelas em recuperação há 55 anos estas pioneiras não estavam mais presentes mas muitas espécies maduras ainda não haviam se estabelecido ali.

 

    Agora imagine qual teria sido o destino destas florestas se a cada 30 anos um novo ciclo de corte de árvores grandes tivesse acontecido ali e se utilizasse a maquinaria pesada que muitas vezes é empregada em operações de larga escala para retirada de troncos (as áreas de estudo sofreram extração com tecnologia rudimentar baseada em animais de tração). 

 

    Apesar do estudo não ter sido feito na Amazônia, mas no extremo sul da Mata Atlântica, só acrescenta generalidade aos seus resultados. Estes concordam com um grande número de pesquisas realizadas em outros países, mas em grande parte no sudeste asiático (veja artigos citados em [4]), de que ciclos de corte de cerca de 30 anos levam à progressiva degradação de florestas ricas em biodiversidade, mesmo quando estas florestas encontram-se conectadas a outras e portanto recebendo uma chuva de sementes trazidas por dispersores animais de forma relativamente constante.

 

   Esta degradação produz florestas com cada vez menos espécies de grande porte e valor econômico e uma quantidade cada vez maior de espécies de madeira leve e crescimento rápido, além de serem mais baixas e terem em geral muito menos biomassa.

 

   A mensagem é clara: o caminho de conciliar a conservação das florestas brasileiras com sua exploração sustentável é acertada e certamente estratégico para o Brasil. Entretanto, a sustentabilidade econômica e a ambiental precisam necessariamente ser satisfeitas ao mesmo tempo, e a evidência científica aponta claramente para a adoção de ciclos de corte consideravelmente mais longos, e áreas concedidas para extração consequentemente maiores também.

 

 

Referências Bibliográficas

 

[1] Missão extrema com Karina Oliani - sobre a série. http://www.brasil.discovery.uol.com.br/missao-extrema-com-karina-oliani-sobre-a-serie/; o episódio em questão está disponivel em https://www.youtube.com/watch?v=Me_12XA3rB4

 

[2] Barreto, P. & Arima, E. 2002. Florestas Nacionais na Amazônia: consulta a empresários madeireiros e atores afins à política floresal. , 45.

 

[3] REMADE 2003. Manejo é a ferramenta para sustentar demanda florestal. Revista da Madeira 70. Disponível em http://www.remade.com.br/br/revistadamadeira_materia.php?num=313&subject=Manejo&title=Manejo%20%C3%A9%20a%20ferramenta%20para%20sustentar%20demanda%20florestal. Consultado em 06/07/2015.

 

[4] Souza, A.F., Cortez, L.S.R. & Longhi, S.J. 2012. Native forest management in subtropical South America: long-term effects of logging and multiple-use on forest structure and diversity. Biodiversity and Conservation, 21, 1953–1969.

 

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