Dez Recomendações da Ecologia para o Uso Sustentável das Florestas do Brasil

November 7, 2015

 Pequena propriedade rural da agricultura familiar, em contato com uma área de Mata Atlântica em Gramado, Rio Grande do Sul. Foto do autor.

 

 

Os números entre colchetes [ ] ao longo do texto são citações bibliográficas. Se alguma te interessar, procure na lista de Referências no final desta postagem!

 

Se você quiser citar este texto, cite assim:

Souza, A.F. 2015. Dez recomendações da ecologia para o uso sustentável das florestas do Brasil. Disponivel em http://esferacientifica.wix.com/esferacientifica, acessado em / /

 

Conseguir utilizar os recursos valiosos que as florestas contêm é um sonho realizável para os brasileiros. Por enquanto, porém, ainda é um sonho. Apesar de produzirem uma longa lista de produtos úteis e serviços importantes, muitas pessoas ainda não entendem o valor dos fragmentos florestais encontrados nas mais de cinco milhões [1] de propriedades rurais brasileiras.

 

Entre os bens produzidos estão a madeira comercial, lenha para uso diário, mel, plantas ornamentais, plantas medicinais e princípios ativos de medicamentos, entre outros. Ao mesmo tempo, as florestas nos prestam serviços de forma contínua como a captura de gases estufa, suavização do clima pela produção de sombra, manutenção da integridade e da umidad do solo pelo escoamento lento da chuva através das folhas, galhos e troncos, proteção dos rios e lagos contra o assoreamento, pregulação do clima pela produção de vapor d'água e nuvens, fornecimento de ambientes turísticos e de lazer, além de beleza contemplativa e inspiração espiritual. Veja o excelente trabalho do cientista americano Bradley Cardinale e seus colaboradores para uma revisão competa sobre o impacto da perda da biodiversidade sobre a vida e a economia da humanidade [2].

 

O Brasil dá os primeiros passos para desenvolver a ciência e a arte do manejo científico e ético da riqueza de suas florestas. Em muitos casos o potencial não é aproveitado e ainda vemos com o desprezo e a desconfiança que os rudes colonizadores portugueses encaravam florestas tão diferentes das que eles conheciam. Ou então nos concentramos em um único item, como a produção comercial de madeira de uma ou duas espécies de árvores, e planejamos esta extração sem considerar a integridade o ecossistema como um todo.

 

Um trabalho publicado na revista científica Biodiversity and Conservation [3] avaliou o impacto da extração seletiva de madeira e também do uso múltiplo desregulado [veja o que é isto na nota 4 abaixo] sobre a estrutura e a biodiversidade de remanescentes da Mata Atlântica.

 

O trabalho se baseou no conceito moderno de de Manejo de Ecossistemas [5], segundo o qual para fazer um manejo sustentável de um bem (por exemplo a madeira) ou serviço (por exemplo o turismo) prestado pelo ambiente precisamos garantir que todo o ecossistema em que aquele bem ou serviço está inserido seja conservado durante a extração ou aproveitamento. Uma das principais contribuições dos autores foi fazer uma revisão dos resultados de pesquisas internacionais e terminar o trabalho com uma lista de dez recomendações da ecologia para o uso sustentável das florestas tropicais e subtropicais, conforme reproduzido a seguir: 

 

1) Ao fazer extração de madeira comercial, extrair volumes reduzidos, possivelmente até 15% da área basal de cada área explorada; 

 

2) Adotar um plano cuidadoso para minimizar os impactos das operações de extração e remoção de troncos, conhecidos como Extração de Impacto Reduzido;

 

3) Adotar tempos de rotação de pelo menos 55 anos (portanto maiores do que os usualmente empregados por exemplo em plantios experimentais de araucárias [Araucaria angustifolia], com 45 anos de duração);

 

4) Reservar pelo menos 10% ou um mínimo de 25 ha das florestas manejadas como refúgios não explorados para a conservação de espécies de animais e plantas, e também como fonte de colonizadores para as áreas impactadas pelo uso;

 

5) Restringir o manejo a remanescentes florestais maiores do que o tamanho-limite, tentativamente, de 100 ha;

 

6) Diversificar a utilização, investindo na extração sustentável de Produtos Florestais não Madeireiros como plantas medicinais, ornamentais, sementes, frutos, mel, entre outros;

 

7) Investir no turismo ecológico;

 

8) Regular o pagamento dos proprietários rurais pelos serviços ambientais prestados pelas florestas encontradas em suas propriedades; 

 

9) Excluir o gado dos remanescentes, pois está amplamente documentado o  efeito destrutivo do pisoteio e do pastejo dos animais sobre a regneeração natural das árvores e arbustos, comprometendo a renovação da vegetação; 

 

10) Restringir a circulação de pessoas além do turismo e do lazer local, para evitar os efeitos degradantes como a caça e o fogo.

 

Como toda compreensão científica, estas recomendações não são finais nem dogmáticas, e devem ser testadas e aprimoradas. Ao mesmo tempo, representam o resultado de um número muito grande de pesquisas e de experiência de campo (muitas vezes desastros, como na Malásia e Indonésia) para não serem levadas em conta e usadas como ponto de partida e base para planos de manejo florestal sustentável autais, que já nascem com o compromisso da nossa época ambientalmente consciente e cada vez mais madura com a integridade de longo prazo dos ecossistemas que sustentam nossas vidas e economias.

 

Referências e Notas

 

[1] INCRA 2012. Relação total de imóveis rurais no Brasil em 2012. Disponível em http://www.incra.gov.br/media/politica_fundiaria/regularizacao_fundiaria/estatisitcas_cadastrais/imoveis_total_brasil.pdf. Acessado em 07/11/2015.

[2] Cardinale, B.J., Duffy, J.E., Gonzalez, A., Hooper, D.U., Perrings, C., Venail, P., Narwani, A., Mace, G.M., Tilman, D., Wardle, D.A., Kinzig, A.P., Daily, G.C., Loreau, M., Grace, J.B., Larigauderie, A., Srivastava, D.S. & Naeem, S. (2012) Biodiversity loss and its impact on humanity. Nature, 486, 59–67.

[3] Souza, A.F., Cortez, L.S.R. & Longhi, S.J. (2012) Native forest management in subtropical South America: long-term effects of logging and multiple-use on forest structure and diversity. Biodiversity and Conservation, 21, 1953–1969.

[4] Uso múltiplo é quando um trecho de floresta é usado para vários objetivos ao mesmo tempo, como caça, extração de lenha ou madeira, abrigo para o gado, etc. E desregulado é quando este uso não segue regras ou normas que possam torna-lo sustentável no longo prazo.

[5] Meffe, G. K., L. A. Nielsen, R. L. Knight, and D. A. Schenborn. 2002. Ecosystem management: adaptive, community-based conservation. Island Press, Washington , D.C.

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